Banco de relatos de acidentes em montanha - CBME

Relatório número 126

*** Caso você conheça as circunstâncias do episódio descrito abaixo e identifique discrepâncias por favor nos comunique***
 
Fonte do relato: Relato escrito por um dos participantes

Tipo de evento: Acidente

Mês e ano: Abril  2017
Parte do dia: Noite
Local: petropolis - RJ/pico do cantagalo, via
Número total de pessoas envolvidas: 5
Número fatalidades: 0

Tipo de ambiente: Rocha (escalada livre ou artificial)

Etapa da atividade: Subindo (inclui guiando, segundo ou cordas fixas)

Condições atmosféricas no momento: Parcialmente nublado

Causa(s) imediata(s):
Queda

Causa(s) contribuinte(s):
Posição desfavorável
Erro de orientação
Noite
cansaço após longo dia de escalada precedido por uma viagem de 450km na madrugada e logo em seguida iniciamos a escalada. Todos sem dormir desde os dia anterior.

Tipo(s) de ferimento(s):
Fratura

Nível de experiência dos envolvidos:
Experiente (mais de 3 anos)

Relato:
Os 5 integrantes da equipe saíram sexta feira, de carro, de BH rumo a Petropólis às 22h e viajaram acordados até chegar à base da montanha ao amanhecer. Após um breve café iniciaram a escalada da via "a soma de todos os medos". Subiram em uma dupla, seguida de perto por um trio. Todos com mais de 10 anos de experiência em escalada em rocha.
Como a via segue uma diagonal bem forte que complica o rapel, o grupo cogitava descer por outra via ou mesmo descer caminhando por uma trilha na outra face da montanha. O grupo sabia que a trilha não era óbvia mas tinha dicas sobre o traçado (ninguém do grupo conhecia aquela montanha ainda) e havia combinado com uma escaladora local um possível resgate de madrugada para levá-los de volta ao carro na base da via.
A escalada fluiu bem, mas devido a ter começado tarde (9h da manhã) e ao cansaço de todos houve uma queda de ritmo e começou a anoitecer antes que chegassem ao cume, ou no ponto onde poderiam descer por outra via. Nesse ponto, próximo à P10, o grupo se reuniu e decidiu continuar à noite até P12 onde há um platô razoável e após um descanso decidir se baixariam ou continuariam até o cume. Nesse momento o escalador A assumiu a guiada. Todos chegaram à P12 e decidiram continuar, novamente com escalador A guiando. A décima terceira enfiada tem 50 metros, começa com uma escalaminhada e, no final, fica vertical, onde há um grampo antes da parada.
Era cerca de oito da noite, e o escalador A tinha dúvidas sobre o caminho a seguir. Ele estava com os pés cerca de 1,5m acima do grampo, o qual estava uns 3 acima do platô. Escorregou e caiu de pé no platô antes mesmo que a corda o detesse, e no limite para que ela atuasse e minimizasse o impacto. Nesse momento o escalador acidentado constatou que era grave e chamou o escalador B até ele. O escalador B, a pedido do escalador A, subiu guiando com outra corda até o grampo acima, fixou a corda ali e aguardou que o escalador A fizesse a transferência de cordas e baixasse até o grupo no platô mais abaixo. Em seguida o escalador B recolheu as cordas e desceu até o grupo.
Ali todos ajudaram na avaliação da vítima e sugeriram que haviam ocorrido fraturas nos 2 pés. Juntos, todos tentaram algumas manobras de auto resgate para descer dali mas todas frustradas. Muito cansaço de todos e a certeza de longos e complicados rapeis fizeram o grupo reavaliar. Logo após o acidente e constatação da fratura o grupo contactou a escaladora local que faria o resgate na trilha e comunicou o ocorrido. Ela imediatamente comunicou a comunidade escaladora local e o corpo de bombeiros.
Havia 5 celulares com a equipe, todos com carga e funcionando. O grupo passou a noite unido, sentados no platô. A vítima foi devidamente aquecida. A última alimentação do grupo foram 3 pães com mortadela para os cinco no meio da madrugada. O pessoal na cidade envolvido no resgate pediu para que o grupo tentasse alcançar o cume pela manhã para facilitar a chegada à vítima. Durante a manhã os escaladores B, C e D continuaram a escalada enquanto o escalador E ficou com a vítima A.
Quando estavam terminando a décima quinta enfiada começou a chover impedindo-os de continuar. Retornaram até um abrigo em P13 e ali esperaram o resgate. A equipe de resgate, composta por experientes escaladores e bombeiros militares, chegou ao cume caminhando no início da tarde e, por celulares e gritos, conseguiram identificar a direção de onde se encontravam os envolvidos. Fixaram algumas proteções (chapeletas) e rapelaram de encontro ao grupo. Primeiro passaram pelos escaladores B, C e D, que logo subiram pelas cordas fixas, e depois chegaram na vítima e o outro escalador envolvido, que também se retirou pelas cordas fixas. O primeiro a chegar foi um escalador voluntário, e em seguida 3 bombeiros trazendo uma maca envelope (os bombeiros estavam muito despreparados, não tinham solteiras e usavam grandes e pesadas lanternas de mão. Não sabiam jumarear com destreza e nem colocar e prender a vítima na maca).
A vítima foi colocada na maca e retirada umas 3 vezes até acertarem a posição, e ainda assim fixaram os cintos e fivelas de forma errada, o que causou enorme sofrimento à vítima durante a ascensão.
A aeronave decolou do RJ mas não conseguiu se aproximar da serra, embora não chovesse após a chegada do resgate. A vítima foi içada por um sistema de polias feito e operado por escaladores enquanto dois bombeiros subiram pelas cordas fixas auxiliando a vítima e guiando a maca. O içamento começou por volta das 17h e foi ate 1h da madrugada do domingo 23 de abril.
No cume, o comandante do grupo de militares deu uma instrução de como imobilizar corretamente a vítima na maca após queixas de dor, devido aos erros.
Os bombeiros se enrolaram nos cobertores de emergência e deixaram a vítima no relento. Alguns escaladores voluntários viram e socorreram a vítima abrigando-a e fornecendo comida.
O grupo passou a noite no cume e, no domingo de manhã, decidiu descer carregando a vítima após nova tentativa frustrada de aproximação da aeronave.
Fizeram uma espécie de trenó, e às 7 da manhã começaram a descida: Uma parte puxava a maca com cordas enquanto outra parte abria a trilha com facões. Na metade do caminho (6km total) outro grupo de militares substituiu o primeiro. A vítima chegou na ambulância às 13h do domingo e foi socorrida ao hospital de Petropólis, onde foi constatada fratura bilateral do talus.

Prevenção (opinião do relator):
Sobretudo descanso adequado antes de uma escalada como essa, além de iniciar mais cedo para evitar a escalada noturna.
Melhor comunicação entre o guia (A) e o segurança. Poderia ter avisado que estava tenso e instável e o segurança deixaria a seg mais justa.

*** Este relato foi fornecido de forma espontânea por um membro da comunidade de montanhistas e reflete sua visão do acidente e sua opinião pessoal. Apesar de fazer máximo esforço para confirmar a veracidade e exatidão dos relatos, a CBME ou seus membros não se responsabilizam por eventuais discrepâncias ou inconsistências encontradas nos relatos, ou ainda se indivíduos ou empresas se sentirem de alguma forma ofendidos ou injustiçados pelo conteúdo do relato, apesar da forma anônima de apresentação dos dados. ***