Banco de relatos de acidentes em montanha - CBME

Relatório número 14

*** Caso você conheça as circunstâncias do episódio descrito abaixo e identifique discrepâncias por favor nos comunique***
 
Fonte do relato: Relato escrito por um dos participantes

Tipo de evento: Acidente

Mês e ano: Março  2012
Parte do dia: Tarde
Local: Água Fria de Goiás - GO/complexo de escalada de Belchior
Número total de pessoas envolvidas: 2
Número fatalidades: 0

Tipo de ambiente: Rocha (escalada livre ou artificial)

Etapa da atividade: Subindo (inclui guiando, segundo ou cordas fixas)

Condições atmosféricas no momento: Parcialmente nublado

Causa(s) imediata(s):
Queda
Falha humana ou desconhecimento de técnica
Falha de equipamento

Causa(s) contribuinte(s):
Segurança inadequada
Corda nova

Tipo(s) de ferimento(s):
Abrasão
Contusão
Estiramento
Fratura

Nível de experiência dos envolvidos:
Experiente (mais de 3 anos)

Relato:
"Por volta de meio-dia e meio adentrei o salão principal de escalada em Belchior e, ao deparar-me com uma amiga conhecida, com quem já escalei antes, pedi que ela fizesse minha segurança na via Revolta dos Bonecos, via quase estritamente vertical, considerada 7A, de cerca de 27 metros de altura.

Peso do Guia (eu): 65kg
Altura do Guia: 1,83m

Peso da Segue: 47kg (minha estimativa aproximada)
Altura da Segue: 1,53m (minha estimativa aproximada)

Costumo escalar e fazer segurança com um Grigri, mas por indisponibilidade deste equipamento, acordamos, em conjunto, em fazer a segurança usando um ATC.

A corda que eu usei nunca tinha sido usada antes, eu acabara de adquirí-la. Trata-se de uma corda Beal de 60m, modelo Booster III 9,7mm.

A via já estava equipada, levei apenas uma solteira e comecei a escalada.

Passei das quatro primeiras costuras, costurando corretamente todas, sem problemas.

Ao posicionar-me para costurar a 5ª costura, ou última antes do topo que é em fast clip, a uma altura de aproximadamente 20 metros, puxei a corda duas vezes, o que foi o suficiente para que eu já alcançasse a costura. Em seguida perdi o pé e imediatamente gritei para a segurança “Queda! Queda! Queda!”. Levei a queda com a corda na mão (a qual soltei instantes depois).

Caí em queda livre por cerca de 11 metros, sendo 8 destes correspondentes à minha distância até a costura anterior multiplicada por dois e aproximadamente 3 metros correspondentes à corda que tinha na mão multiplicada por dois. Com o dinamismo da corda eu calculo que a queda total deveria ter ficado em torno de 14 metros.

Mas o ocorrido foi que, no momento em que meu corpo retesou a corda e exigindo o travamento do ATC, o sistema não ofereceu resistência o suficiente e a corda correu pelas costuras e pelo ATC, servindo apenas para me desacelerar nos metros finais do percurso, ocasionando meu impacto no solo. Caí com os dois pés, com as pernas flexionadas e com o quadril pesando para trás, o que felizmente impediu que os meus joelhos absorvessem o impacto, fazendo com que minhas costas e braço direito fossem arremessados ao chão após o impacto com os pés. Bati com a cabeça numa pedra, no solo, mas apenas de forma leviana. Não estava usando capacete nem camisa. Sofri escoriações nas costas e braço direito, o qual ficou dolorido por alguns dias, assim como o pescoço. A maior parte do impacto foi absorvida pelo meu calcanhar direito, o qual sofreu múltiplas fraturas no Talus e o rompimento total de dois ligamentos, segundo laudo médico. O pé esquerdo ficou dolorido, mas não sofreu danos maiores.

Diante da altura em que estava, certamente a segurança não falhou completamente, pois amenizou significativamente o meu impacto.

Conversando com a colega que fazia minha segurança e duas testemunhas, levantamos algumas hipóteses para o ocorrido, o que relato em seguida:

A Segue disse não ter sido capaz de segurar a corda no momento do impacto, e tentou segurá-la como pôde enquanto a corda corria pelo ATC. Suas mãos sofreram queimaduras de abrasão consideráveis. Ela relatou, mais tarde, acreditar que sua mão de freio estava muito próxima do ATC, e por isso, no momento da queda a alavanca que fazia para baixo não foi o suficiente. Pondera se tivesse levado a mão de freio às costas ou mais para baixo talvez tivesse ajudado a segurar a força do impacto melhor. Afirma, no entanto, ter tido tempo de virar o punho da mão de freio para baixo, pois este estava virado para cima para facilitar que me desse corda para costurar.

A testemunha #1 relatou ter visto a Segue segurando a corda da guia e a corda do freio ambas com o punho para cima no momento da queda, o que teria prejudicado sua performace em segurar a corda no momento do impacto. A Segue rebate este relato argumentando que as queimaduras sofridas na mão de freio foram na parte de dentro dos dedos, o que só teria sido possível se estivesse com o punho para baixo, o qual ela assim posicionou no momento em que anunciei a queda.

A testemunha #2 defende que o fato de eu cair com a corda na mão somado ao dinamismo da corda e ao fato da corda ser nova e assim deslizar com mais facilidade pelos equipamentos foram o que ocasionaram o acidente, tendo sido muito improvável que a Segue conseguisse conter toda a queda sem que a corda corresse e que, sem sua enorme determinação em segurar a corda enquanto essa corria pelo equipamento, minha queda teria sido muito pior.

Após o acidente, outro acontecimento que vale a pena ser citado foi a dificuldade do resgate. A testemunha #1 e outro escalador se revezaram em me carregar nas costas, na maior parte do trecho entre o salão principal e o carro. Houve dois trechos, no entanto, em que eu tive de saltar sobre meu pé esquerdo, apoiado no ombro ou braço dos meus auxiliadores, pois não havia espaço para que eles me carregassem. Supondo que o acidente tivesse sido mais grave e eu tivesse sofrido danos na coluna ou em ambas as pernas, ou que tivesse perdido a consciência, o resgate teria sido feito, obrigatoriamente, por outra saída, possivelmente a que encontra-se atrás da via Retaguarda ou a que faz uma volta maior ao redor do complexo, após a via Cacos e Copos. Ainda assim, estes caminhos, que não tem trechos tão estreitos e escuros como o do caminho direto que passa pelas cavernas da entrada, oferecem riscos e desvantagens consideráveis. A dificuldade de resgates em Belchior deve ser colocada em pauta pelos escaladores que o frequentam."

Prevenção (opinião do relator):
"Diante do ocorrido e dos testemunhos acima, levanto os seguintes questionamentos:

1) É seguro que o Guia tenha a segurança feita por alguém muito mais leve que ele usando um ATC?

2) É aconselhável dar-se corda no ATC com os punhos voltados para cima ou deveria o punho da mão de freio estar sempre voltado para o chão?

3) Uma maca com imobilizador de pescoço e tiras de velcro e um kit de primeiros socorros não deveriam ser itens sempre presente na casa alugada em Belchior?

4) Como viabilizar recursos e voluntários para um melhor preparo dos escaladores tanto na prática da escalada quanto no preparo para resgates?"
Recomendações (CBME):
1. Seguranças muito mais leves que os guias devem se ancorar para dar segurança para evitar que "decolem" ao travar a queda do guia.
2. Independentemente do equipamento de segurança/frenagem utilizado, no caso de uma queda do guia o movimento da mão que segura a parte livre da corda é muitíssimo importante e é essencialmente o mesmo seja o freio um autoblocante ou não: mais importante que a posição da palma da mão é o ato de trazer a corda para trás do quadril assim distribuindo por uma área muito mais ampla o atrito com a corda, minimizando a força que se tem que fazer com a mão sobre a corda; esse movimento é mais fluido e eficiente com a palma da mão voltada para baixo.
3. Comunidades de escaladores, principalmente os que frequentam áreas mais remotas, devem ter protocolos estabelecidos para situações de emergência, se possível com diálogo/envolvimento com as autoridades locais (bombeiros, voluntários, etc.); em áreas de acesso problemático deve ser discutida aquisição e manutenção próximo à área de escalada de equipamento para evacuação de acidentado, mais especificamente prancha rígida e colar cervical.
4. Um kit de primeiros socorros contendo talas de imobilização de membros também pode ser discutida, porém talas podem ser facilmente improvisadas com materiais tais como papelão ou ramos de vegetação, se for o caso.
5. Kits de primeiros socorros de menor porte do tipo vendido em farmácia podem ser levados por cada dupla que escala, haja visto o pequeno espaço que ocupam na mochila; são muito úteis para lidar com pequenos problemas, como pequenas lacerações, bolhas, etc., mas de pouco uso em um acidente de grande porte, onde mais importantes serão a atitude e preparo para improvisações em caso de falta de equipamento adequado (principalmente maca improvisada, talas e imobilização cervical).

*** Este relato foi fornecido de forma espontânea por um membro da comunidade de montanhistas e reflete sua visão do acidente e sua opinião pessoal. Apesar de fazer máximo esforço para confirmar a veracidade e exatidão dos relatos, a CBME ou seus membros não se responsabilizam por eventuais discrepâncias ou inconsistências encontradas nos relatos, ou ainda se indivíduos ou empresas se sentirem de alguma forma ofendidos ou injustiçados pelo conteúdo do relato, apesar da forma anônima de apresentação dos dados. ***