Banco de relatos de acidentes em montanha - CBME

Relatório número 142

*** Caso você conheça as circunstâncias do episódio descrito abaixo e identifique discrepâncias por favor nos comunique***
 
Fonte do relato: Relato escrito por um dos participantes

Tipo de evento: Incidente (quase acidente)

Mês e ano: Junho  2021
Parte do dia: Tarde
Local: Campinas - SP/Pedreira do Garcia
Número total de pessoas envolvidas: 4
Número fatalidades: 0

Tipo de ambiente: Rocha (escalada livre ou artificial)

Etapa da atividade: Subindo (inclui guiando, segundo ou cordas fixas)

Condições atmosféricas no momento: Parcialmente nublado

Causa(s) imediata(s):
Falha humana ou desconhecimento de técnica
Comportamento de risco

Causa(s) contribuinte(s):
Habilidades excedidas
Segurança inadequada
Posição desfavorável
Erro de orientação
Sem proteção ou com proteção inadequada

Tipo(s) de ferimento(s):
Psicológico

Nível de experiência dos envolvidos:
Pouca (menos de 1 ano)
Moderada (1 a 3 anos)

Relato:
Eu (2,5 anos de experiência, 31 anos) estava escalando na Pedreira do Garcia com a minha irmã Participante NF (2,5 anos de experiência, 28 anos). Avistamos outra dupla escalando no local, e de longe foi possível identificar que estava acontecendo um procedimento de abandono. Como não é comum, fui verificar e identifiquei o Participante V (iniciante, aproximadamente 20 anos de idade) ancorado em uma chapeleta com uma multichain, a corda estava passada diretamente em duas chapeletas simples (sendo uma delas, da via do lado, a aproximadamente 1,5m de distância uma da outra, aquele na qual o Participante V estava ancorado), o escalador havia desencordado, e a seg, Participante NV (sem experiência nenhuma, aproximadamente 20 anos de idade), já havia liberado a corda do Grigri.
Ao ver a corda passada diretamente nas chapeletas, percebi que se tratava de uma situação de risco, logo pedi para que o Participante V parasse o procedimento e me explicasse o que aconteceu.
Foi me relatado que ele havia tentado entrar na via Dona Doida 6sup, mas havia errado a leitura do croqui e havia entrado na via errada (Pedrinhas Bonitinhas - 7b), que fica a esquerda da Dona Doida.
Pedi para que o Participante V permanecesse parado na via, e que realizasse um backup com as costuras que estavam no rack da cadeirinha, conectando-as na chapeleta mais próxima (que não fosse a que ele estava solteirado), e no loop da cadeirinha. Não pedi para que ele encordasse novamente e realizasse um fiel, pois não me senti confiança em seu procedimental, e como ele estava distante da outra chapeleta, preferi não instruí-lo a ficar se movimentando naquela proteção, sem saber se a mesma estava segura.
Iniciei a subida na via da direita (Fim das Picada - 5), na seg da Participante NF, afim de atingir a parada da Dona Doida, e iniciar o rapel para instruir o Participante V no abandono.
Alcançando o Participante V, após conversa e observação notei os seguintes erros:
- Participante havia montado a multichain com um boca de lobo, sendo que a mesma apresenta localização específica de passada para evitar o uso desse laço (Conquista Bomber Azul).
- Todas as costuras (de 7cm) colocadas na via estavam em posição errada (mosquetão bloqueado na expressa colocado na chapeleta e diversas com o gatilho orientado no sentido errado)
- Mosquetão utilizado para a solteira (HMS, com gatilho virado para rocha
- Corda passada diretamente nas chapeletas (modelo comum, com cantos vivo)
- Seg não havia conseguido recolocar a corda no Grigri (uso de seg inexperiente).
- Ao realizar o backup com as costuras, o Participante V havia posiciodado dois mosquetões em tração transversal em um aresta.
Juntos, retiramos a corda das chapeletas, pedi pra Participante NF pegar a seg do Participante V, passamos a cordas nas costuras e encordamos o Participante V novamente. Quando o mesmo estava pronto para a descida de baldinho, comunicamos a seg que realizou a descida do participante em segurança.

Prevenção (opinião do relator):
Escalador V comprou os equipamentos mas não tinha conhecimentos basicos para guiar uma via. Fato demonstrado pela colocação errada das costuras. Não conhece ps procedimentos de rapel e os riscos de se realizar o mesmo passando a corda diretamente em chapeletas comuns. Também não fez a leitura do manual da multichain, colocando-a de forma inadequada. Escalou guiando uma via desconhecida, cujo grau excedia suas capacidades, utilizando uma seg que não fazia ideia do procedimento. Não instruiu a seg a utilizar o Grigri.
O participante V deveria ter realizado um curso básico de escalada, e, se possível, ter escalado com pessoas mais experientes.
Recomendações (CBME):
É muito importante que os escaladores iniciantes, novatos (ou que estejam a um bom tempo sem escalar) escalem com parceiros mais experientes. Isso independente da dificuldade da via.

Da mesma forma é importante que a dupla detenha de forma sólida todos os conhecimentos básicos relacionados a cadeia de segurança durante a escalada, isso contempla os nós, montagem de paradas, uso correto dos freios, backup durante o rapel, ascensão por corda fixa, etc...

Havendo dúvida quando à capacidade técnica de um dos parceiros, é preferível fazer uma reciclagem ou ter todas as dúvidas sanadas e procedimentos bem estabelecidos.

*** Este relato foi fornecido de forma espontânea por um membro da comunidade de montanhistas e reflete sua visão do acidente e sua opinião pessoal. Apesar de fazer máximo esforço para confirmar a veracidade e exatidão dos relatos, a CBME ou seus membros não se responsabilizam por eventuais discrepâncias ou inconsistências encontradas nos relatos, ou ainda se indivíduos ou empresas se sentirem de alguma forma ofendidos ou injustiçados pelo conteúdo do relato, apesar da forma anônima de apresentação dos dados. ***