Banco de relatos de acidentes em montanha - CBME

Relatório número 47

*** Caso você conheça as circunstâncias do episódio descrito abaixo e identifique discrepâncias por favor nos comunique***
 
Fonte do relato: Relato escrito por um dos participantes

Tipo de evento: Incidente (quase acidente)

Mês e ano: Julho  2006
Parte do dia: Noite
Local: Teresópolis - RJ/Escalavrado - PNSO
Número total de pessoas envolvidas: 6
Número fatalidades: 0

Tipo de ambiente: Rocha (escalada livre ou artificial)

Etapa da atividade: Subindo (inclui guiando, segundo ou cordas fixas)

Condições atmosféricas no momento: Chuva

Causa(s) imediata(s):
Comportamento de risco

Causa(s) contribuinte(s):
Noite
temporal inesperado, vento gelado sem dar trégua

Tipo(s) de ferimento(s):
Hipotermia
Psicológico
Piora de condição de saúde preexistente

Nível de experiência dos envolvidos:
Experiente (mais de 3 anos)

Relato:
A excursão era formada por 1 cordada na recém conquistada Aperitivo e 2 cordadas na Xenólitos Perdidos no Imenso Monolito, ambas no Escalavrado (PNSO).

A previsão era de uma frente fria. A idéia era ficar ligado no clima durante a escalada. A via que eu e escalador A escalávamos era a Aperitivo, 10 enfiadas e com possibilidades de fuga em qualquer esticão. Na outra via são mais de 15 esticões, sendo que a partir de um determinado ponto não é mais rapelável.
Durante a escalada houve chuviscos que não chegaram a molhar a parede e assim todos continuaram sua escalada...

Eu e escalador A chegamos no cume, lanchamos e descemos pela trilha.

Escaladores B,C, D e E, por a via ser de grau bem mais elevado que a Aperitivo, ainda continuavam na via... sendo que quando a via começou a se tornar comprometedora, os escaladores D e E resolveram rapelar.

Eu e escalador A durante a descida encontramos com um grupo do CERJ que havia feito a caminhada e assim descemos todos juntos.

Quando chegamos na estrada no início da trilha ligamos pro outro grupo e nenhum celular foi atendido e resolvemos descer até aonde estavam os carros e beber uma cerveja enquanto aguardávamos os escaladores B, C, D e E... só que na descida da estrada caiu um temporal tenebroso do nada e tentamos novamente contato com o outro grupo e nada... meu celular tocou e era a esposa do escalador D (que havia rapelado com escalador E) dizendo que os escaladores B e C estavam a 50 metros do cume mas a parede (que é em aderência) estava totalmente molhada, estava escurecendo e não tinha como eles rapelarem, e o escalador C estava com um anorak que não estava dando vazão, causando um princípio de hipotermia. Perguntou se podíamos ir até o cume e fixar uma corda no último grampo da via pra eles prussicarem. Os escaladores em questão são grandes amigos e parceiros, na mesma hora não pensei duas vezes e eu e escalador A decidimos voltar, subir a trilha e achar o último grampo da via.

Ao chegarmos na entrada da trilha, encontramos o grupo do CERJ. Estava chovendo muito, frio e escurecendo... e eu escalador A estávamos com todos os equipamentos para aquele clima: anorak, lanterna e casaco e o pessoal do CERJ ainda emprestou um anorak e uma manta metálica (daquelas que parecem um saco) e lá fomos nós...

Durante a nossa subida, recebemos uma ligação dos escaladores D e E, sugerindo que esperássemos por eles para todos irem juntos, mas estava escurecendo cada vez mais, mais difícil de enxergar e achei melhor continuarmos subindo (falha).

Estava MUITO frio, a trilha estava toda confusa por causa da névoa e a lanterna não ajudava muito... muito escuro, embaçado... fomos desencordadas (falha nossa).

Quase no cume, escutamos vozes, e resolvemos montar um rapel num grampo da trilha até um platô pra tentarmos ver se eram eles. Chegamos no platô e puxamos a corda (foi uma grande falha nossa).

No platô, foi montado um rapel com corda fixa numa arvorezinha e vimos que eles estavam a 20m abaixo em diagonal.

Pensamos em retornar àquele grampo da trilha pra continuarmos a subida, apesar do nosso cansaço e frio...só que não conseguíamos sair do platô, era um lance bem vertical e molhado (o lance é o final da Infinita Highway) e alí tomei consciência de que iríamos ficar por alí... eram 22:00hs.

Pegamos nossos telefones e ligamos para algumas pessoas sem sucesso até que uma atendeu. Esta pessoa passou a ser o coordenador do resgate, entrando em contato com as pessoas e 4 se prontificaram a subir: 2 escaladores de Teresópolis que iriam subir a trilha a partir das 7 da manhã do dia seguinte e outra dupla, que se prontificou a pegar a estrada, chegando até mim e escalador A às 6hs da manhã e que também retirou escaladores B e C.

Prevenção (opinião do relator):
Não deixar que o emocional tome as decisões.
Esperar outros escaladores para todos pensarem juntos no que fazer é uma boa medida.
Não subir desencordado.
Não ter deixado corda fixa foi um erro.
É difícil julgar decisões tomadas... a via é muito difícil tecnicamente e comprometedora, abortar para voltar depois é desanimador... mas a montanha estará por muitos anos lá e oportunidades de retornar existem.
Recomendações (CBME):
Lanternas de LED e cobertor térmico de emergência são ítens de pouco volume e devem estar presentes na mochila quando incursionando em região com clima desfavorável, com possibilidade de atraso e adentrando a noite.
Idealmente deve-se ter um comando centralizado em situações de resgate, com um coordenador experiente. Caso os participantes não se sintam qualificados para tal, deve-se lançar mão de recursos disponíveis na área (corpo de resgate, bombeiros) o mais cedo possível.

*** Este relato foi fornecido de forma espontânea por um membro da comunidade de montanhistas e reflete sua visão do acidente e sua opinião pessoal. Apesar de fazer máximo esforço para confirmar a veracidade e exatidão dos relatos, a CBME ou seus membros não se responsabilizam por eventuais discrepâncias ou inconsistências encontradas nos relatos, ou ainda se indivíduos ou empresas se sentirem de alguma forma ofendidos ou injustiçados pelo conteúdo do relato, apesar da forma anônima de apresentação dos dados. ***