Banco de relatos de acidentes em montanha - CBME

Relatório número 69

*** Caso você conheça as circunstâncias do episódio descrito abaixo e identifique discrepâncias por favor nos comunique***
 
Fonte do relato: Relato escrito por um dos participantes

Tipo de evento: Acidente

Mês e ano: Fevereiro  2014
Parte do dia: Manhã
Local: São Bento do Sapucaí - SP/Pedra do Baú (Col)
Número total de pessoas envolvidas: 3
Número fatalidades: 0

Tipo de ambiente: Montanha (trilha)

Etapa da atividade: Sem movimento (inclui paradas de escalada em rocha)

Condições atmosféricas no momento: Sol

Causa(s) imediata(s):
abelhas

Causa(s) contribuinte(s):
Grupo se separou

Tipo(s) de ferimento(s):
picadas

Nível de experiência dos envolvidos:

Relato:
Nesse último final de semana, eu (escalador A) estava levando um casal para escalar na Pedra do Baú – SP, éramos eu, o escalador B e C

Tivemos um dia perfeito de escalada no sábado. No domingo, acordamos logo cedo e fomos para fazer a “Cresta+Normal” na Pedra do Baú.

Logo após fazermos a trilha inicial e subirmos a escada amarela, do lado esquerdo, iniciou-se um ataque de abelhas. Ali é um lugar que tradicionalmente costuma ter vespas/maribondos, mas dessa vez foi um ataque de abelhas, animal de comportamento bem diferente...

O escalador B começou a tomar as primeiras picadas e conseguiu fugir em direção ao início da “cresta”, o forte vento (e a distância) impediram que ele continuasse tomando picadas onde ele se abrigou.

Uma parte do enxame veio para cima de mim. O escalador C, que estava entre nós, não havia tomado (ainda) nenhuma picada e falei então para ela ficar quieta e não se mexer (para não iniciarem um ataque à ela).

Eu consegui “fugir” descendo a escada amarela e já quase chegando ao estacionamento do Baú eu já havia conseguido matar todas as abelhas no meu corpo/cabelo/rosto e o enxame não me perseguiu.

Enquanto eu corria na trilha, pedia por ajuda de qualquer montanhista que eventualmente estivesse por ali (eu precisaria de mais roupas, etc...)

Encontrei nesse momento um escalador do CAP, que me emprestou alguma coisa e voltamos à escada amarela para ver como estavam as coisas.

O enxame ainda estava por ali e eu não conseguia sequer chegar decentemente perto da escada. Nesse momento o escalador C começou a ser atacada e a gritar.

Segundo o relato dela ela pensou em “se jogar” em direção às árvores, tal o desespero. Finalmente ela abandonou tudo e conseguiu sair e correr em direção à escada, e descer a escada sendo atacada de forma ininterrupta (e nós lá embaixo também).

Quando ela chegou na trilha, começamos novamente a fugir em direção ao estacionamento, sendo que ela já havia tomado algo em torno de 300 picadas.

Logo que chegamos ao estacionamento, nós dois vomitamos um pouco. Deixei o escalador C com o membro do CAP, pedindo para que a verificasse constantemente, e se a qualquer momento ela começasse a ter qualquer dificuldade para respirar (uma eventual reação alérgica às picadas) pedi para ele levar o mais rapidamente ela ao hospital/pronto atendimento em Campos do Jordão (cidade vizinha à São Bento e com uma melhor infraestrutura).

Corri então até o topo do Baúzinho e consegui avistar o escalador B próximo à cresta do Baú.

Avisei a ele que sua esposa estava bem e no estacionamento, que era para ele ficar calmo, sentado, não fazer barulho e aguardar que eu daria um jeito de chegar até ele.

No quiosque do Vicente peguei um pouco de óleo diesel, alguns panos, umas camisetas, etc.. e preparei uma tocha para fazer fumaça/fogo e conseguir atravessar o enxame e ir em busca do Escalador B. Consegui ainda com o Vicente um providencial inseticida em aerossol. Arranjei mais roupas para me proteger, e consegui mais roupas também para o Escalador B.

Voltei correndo na trilha, na base da escada já comecei a ser picado novamente, mal consegui acender a tocha e realmente, com o fogo (e que fogo !!!) e com a fumaça, consegui subir a escada, fazer a travessia e... a tocha acabou/apagou praticamente no final da travessia... as abelhas recomeçarama a atacar quase que instantaneamente... comecei a disparar o inseticida (inclusive no meu rosto, que era a parte mais exposta) e consegui chegar na trilha e correr até a cresta.

Cheguei até o escalador B, coloquei as roupas nele e na esperança das abelhas ainda estarem “zonzas” pela fumaça e pelo inseticida, voltamos novamente correndo para o col, onde atravessamos (sendo novamente picados) e conseguirmos chegar até a escada.

Ao chegarmos na escada, encontramos dois bombeiros (que alguém deve ter chamado no estacionamento) preparados para um ataque de abelhas, com proteção facial, etc... (só não tinham a fumaça... rsrsrs).

Descemos rapidamente o escalador B, o bombeiro (que ainda estava na escada) e eu fui em seguida, sendo consumido pela abelhas (que também atacavam quem estava na base da escada, na trilha, etc...).

Ao chegarmos no estacionamento, havia uma ambulância que veio junto com os bombeiros.

Fomos todos para Campos do Jordão, eu e o escalador C vomitando quase descontroladamente. O escalador B (que deve ter tomado “só” umas 100 picadas) estava super bem.

Na unidade de pronto atendimento fomos medicados, etc...

Então é isso... certamente esse relato está incompleto e com algumas lacunas e eventuais erros.

Nossa grande sorte é que ninguém era alérgico, senão o cenário teria sido realmente trágico.

Recomendo a leitura atenta do seguinte artigo:

http://www.marski.org/artigos/121-artigos-tecnicos/1-abelhas-conhecendo-e-evitando-ataques

Não sei exatamente onde está a colméia das abelhas, mas imagino que deva estar logo no começa da triha após o col. Ali é um lugar de trânsito de muitas pessoas. Seria interessante tentar remover essa colméia. O ataque começou de forma aparentemente espontânea, ainda no col.

Abraços e boas escaladas seguras a todos,

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Por último, algumas considerações de caráter geral:

A ambulância foi enviada com apenas uma técnica de enfermagem, até aí tudo bem. O médico orientou a aplicar fenergan (um anti-histamínico) e adrenalina caso estivéssemos "ruins". A técnica não aplicou nenhum dos medicamentos pois "achou" que não era necessário !?. Recebemos a medicação apenas no Pronto Atendimento... Não havia suporte ventilatório na ambulância (e mesmo que houvesse, quem iria fazer alguma coisa caso alguem tivesse um choque anafilático e tivesse uma parada respiratória ?!).

Não houve preocupação de nenhum dos profissionais de saúde em remover os ferrões (o membro do CAP foi quem ficou removendo os ferrões ainda no estacionamento). Essas são as minhas únicas observações quanto ao atendimento inicial.

Por parte do bombeiros, talvez eles devessem ter uma bomba de fumaça/inseticida ou algo assim. Estavam apenas com um (ou mais) extintores de incêndio (de carro) no intuito de afastar as abelhas. No mais, eles atuaram de forma exemplar, sendo que eram 4 bombeiros, apenas 2 estavam protegidos contra as abelhas e o bombeiro que subiu as escadas estava com uma máscara protetora de abelhas para ser usada com o Escalador B (nem deu tempo de colocarmos, prefiri fugir o mais rapidamente do ataque).

Eu fui quem ficou com pior o quadro clínico, provavelmente devido ao número das picadas (algo próximo de 500) e também por ter respirado de forma signficativa o inseticida. Minha pressão chegou a 80X60mmHg, forte taquicardia (FC de 154bpm) e uma discreta dispnéia.

Ficamos em observação por algumas horas no PA, fomos liberados e voltamos para casa.

Se você tiver treinamento de APH/WFA/WAFA/WFR, recomendo a leitura do breve artigo: http://www.marski.org/artigos/121-artigos-tecnicos/375-choque-anafilatico-o-que-fazer-em-casos-de-picadas-de-abelhas-vespas

Estamos todos bem (apesar das picadas que tomei dentro da boca, dentro do nariz, dentro do ouvido... como isso dói !!! rsrsrs).

Prevenção (opinião do relator):
Uso de roupas claras? Aparentemente as cores claras evitam um ataque maior.
Estávamos todos com calças compridas e mangas compridas, certamente impediu um dano maior.
Andar em silêncio na trilha/aproximação.

E nesse caso em especial, acho que seria interessante removerem essa colméia dali. Outros acidentes/incidentes podem acontecer novamente e no mesmo local.

*** Este relato foi fornecido de forma espontânea por um membro da comunidade de montanhistas e reflete sua visão do acidente e sua opinião pessoal. Apesar de fazer máximo esforço para confirmar a veracidade e exatidão dos relatos, a CBME ou seus membros não se responsabilizam por eventuais discrepâncias ou inconsistências encontradas nos relatos, ou ainda se indivíduos ou empresas se sentirem de alguma forma ofendidos ou injustiçados pelo conteúdo do relato, apesar da forma anônima de apresentação dos dados. ***