Banco de relatos de acidentes em montanha - CBME

Relatório número 82

*** Caso você conheça as circunstâncias do episódio descrito abaixo e identifique discrepâncias por favor nos comunique***
 
Fonte do relato: Relato escrito por um dos participantes

Tipo de evento: Incidente (quase acidente)

Mês e ano: Fevereiro  2008
Parte do dia:
Local: Teresópolis - RJ/Pedra do Sino
Número total de pessoas envolvidas: 1
Número fatalidades: 0

Tipo de ambiente: Montanha (trilha)

Etapa da atividade: Caminhando (inclui escaladas fáceis sem equipamento de proteção)

Condições atmosféricas no momento: Chuva

Causa(s) imediata(s):
Perdido(s)

Causa(s) contribuinte(s):
Noite

Tipo(s) de ferimento(s):
Psicológico

Nível de experiência dos envolvidos:
Moderada (1 a 3 anos)

Relato:
Trabalhava como voluntário no Parque (Serra dos orgãos) localizado em Teresópolis como vigilante no Abrigo 4 perto do cume da Pedra do Sino (2.275 m), eu ficava lá 7 dias e sete embaixo. Um dia acordei, e como já faziam 5 dias que estava só lá em cima, resolvi conhecer a montanha. Peguei o rádio, uma capa, água e parti - tinha ouvido na semana anterior sobre uma travessia pequena bem ali perto, só que eu não conhecia nada. Mas como vinha do MTB acostumado a me localizar bem, achei que seria fácil de fato me localizar. E foi. Modéstia à parte, me saí muito bem. Fiz uma trilha linda, sempre seguindo o sino como referência, só que ao chegar numa parede, vi que era só subir e pronto: lá era o cume de uma outra montanha que dava acesso à trilha da Pedra da Baleia. Esta eu conhecia bem: era próxima ao Abrigo 4, eu sempre me esticava por ela, assim ficava próximo ao Abrigo 4, podendo monitorá-lo de perto sem precisar ficar nele. Só que ao tentar escalá-la cheguei a um ponto que não dava mais e, pra piorar, do nada o céu de azul passou a cinza e em seguida começou a chover pouco, mas o suficiente pra fechar toda a minha visão - e minha única referência para piorar. Subir foi fácil; quando não dava mais, resolvi desistir da empreitada. Só que logo me vi preso, pois como os gatos eu subi determinado a chegar lá em cima sem me preocupar em como descer. Eu não tinha corda, fiquei com medo, parado ali naquela pedra imobilizado, pois para cima era queda quase certa. Pensei e me acalmei. Eu orei e vi que minha calma foi anormal. Desci uma perna sem me virar da parede e depois a outra e depois sem a referência que eu tinha antes não achei a trilha de volta. Agora eu estava perdido. O nevoeiro era denso, lá é um pouco alto - quem já frequentou sabe como é. Até hoje não sei como achei a trilha, mas achei e sem me machucar pude sair dessa sozinho. Vocês lembram: eu tinha um rádio, mas o orgulho não me deixou usá-lo. Ainda bem. Hoje digo isso porque tudo saiu bem, mas podia não ter saído. É uma história simples, mas eu aprendi muito com ela: nunca subestime uma montanha por menor que ela seja.

Prevenção (opinião do relator):
Eu sei que é repetitivo mas a melhor técnica é a humildade, saber desistir - dificil palavra para um montanhista que vive de conquistas e superação própria, mas essa é minha opinião. Por falta dela muitos já morreram, inclusive os melhores escaladores que este planeta já teve. Saiba voltar na hora que tudo indica que é a hora, você saberá.
Análise (CBME):
Caminhadas fáceis e escaladas do mais baixo grau podem ser muito perigosas se combinadas com outros fatores como desconhecimento do caminho ou traçado da via, perda de visibilidade por chegada da noite ou mudanças de condições meteorológicas, etc.
Recomendações (CBME):
Por mais simples que a excursão ou escalada seja, é preciso planejamento para conhecimento do caminho ou traçado da via.
Se não for possível ir acompanhado é boa prática comunicar a alguém seu plano de trajeto e hora aproximada de volta para que recursos possam ser iniciados/mobilizados em caso de necessidade.
Nos últimos anos a tecnologia de previsão do tempo avançou muito a ponto de prever até mesmo a hora aproximada de chuvas e ventanias. Checar a previsão deve tornar-se um hábito em atividades que podem ser afetadas por mudanças repentinas nas condições do tempo, principalmente em regiões serranas, onde uma simples neblina pode eliminar totalmente a visibilidade.

*** Este relato foi fornecido de forma espontânea por um membro da comunidade de montanhistas e reflete sua visão do acidente e sua opinião pessoal. Apesar de fazer máximo esforço para confirmar a veracidade e exatidão dos relatos, a CBME ou seus membros não se responsabilizam por eventuais discrepâncias ou inconsistências encontradas nos relatos, ou ainda se indivíduos ou empresas se sentirem de alguma forma ofendidos ou injustiçados pelo conteúdo do relato, apesar da forma anônima de apresentação dos dados. ***