Banco de relatos de acidentes em montanha - CBME

Relatório número 97

*** Caso você conheça as circunstâncias do episódio descrito abaixo e identifique discrepâncias por favor nos comunique***
 
Fonte do relato: Relato escrito por um dos participantes

Tipo de evento: Acidente

Mês e ano: Novembro  2016
Parte do dia: Manhã
Local: Serra Caiada - RN/Serra Caiada - Setor dos Negativos
Número total de pessoas envolvidas: 8
Número fatalidades: 0

Tipo de ambiente: Rocha (escalada livre ou artificial)

Etapa da atividade: Descendo (inclui rapel)

Condições atmosféricas no momento: Sol

Causa(s) imediata(s):
Falha humana ou desconhecimento de técnica
Nó errado

Causa(s) contribuinte(s):
Segurança inadequada
Seg inexperiente

Tipo(s) de ferimento(s):
Estiramento
Fratura
Síndrome Neuropatica / perda parcial dos movimentos da mão direita

Nível de experiência dos envolvidos:
Moderada (1 a 3 anos)

Relato:
Estávamos em Serra Caiada. Éramos oito pessoas escalando em vias esportivas diferentes. Escalador A ao fazer o procedimento de rapel, não fez o nó na ponta e não meiou a corda. Como era uma via curta e esportiva, o escalador A perguntou ao escalador B se a corda tinha chegado ao chão. Porém o escalador B afirmou que a corda chegou ao chão sem ter olhado para a mesma. Logo, faltou corda para o escalador A chegar ao chão, o que ocasionou uma queda de alguns metros não específicos entre 3 a 6 m. Nesta queda o escalador A fraturou o pé esquerdo, torceu e danificou os ligamentos do pé direito e fraturou o punho/rádio direito.
Após a queda o escalador A foi hospitalizado e cirurgiado.

Discutindo o que aconteceu com vários escalados experientes, inclusive mestres e professores de escalada da região, começamos a ter dúvidas sobre um dos procedimentos relacionado ao prussik. Como é sabido por todos este nó pode ser feito tanto acima do freio ATC (que foi a primeira forma a ser aprendida), como também pode ser utilizado abaixo do freio ATC. Porém, ao fazer este nó blocante abaixo do freio ATC, ele não fica com uma função 100% segura. Se o escalador não der o nó na ponta e faltar corda, o nó não vai adiantar de nada porque a corda já terá saído do nó e assim consequentemente escapado pelo freio ATC. Mas se o Prussik estiver acima do freio ATC e o Nó da ponta se desfazer por ter encalhado ou por algum outro motivo, o Prussik irá segurar porque o vácuo da queda irá iniciar na mão-freio que sempre fica bem abaixo próximo a coxa, e isto dará um espaço/tempo maior, que irá fazer com que o Prussik seja acionado com a sua função de nó blocante, desta maneira evitando um acidente de rapel.

Prevenção (opinião do relator):
Na minha opinião, para prevenir novos acidentes, tanto nós escaladores devemos respeitar mais as etapas da escalada como de todos os outros esportes, como também os livros de escalada deveriam seguir um padrão de procedimentos universal global. Na minha opinião, o estudo deste fato ocorrido e a análise do procedimento de fazer o Prusik acima do ATC e não por baixo já ajudaria muito. Nesta ocorrência, conversando com muitos outros escaladores, escutei casos parecidos com o meu mas não sei se foram relatados. Espero ter ajudado e espero que me ajudem com esta dúvida sobre este procedimento, pois, se ainda não deixei claro, quero deixar claro que este acidente ocorreu por falha humana do escalador A e por falha humana do escalador B. O questionamento sobre o Prussik surgiu após o acidente enquanto discutíamos sobre os fatos.
Análise (CBME):
Complementando a análise do relator, apesar de o nó blocante/Prussik colocado acima do aparelho de frenagem em tese poder bloquear a corda se essa passar pelo aparelho, isso dependeria de muitos fatores - nó bem ajustado, distância do freio, etc.
Vale lembrar que a função do Prussik nesse caso é realmente travar a corda em caso de queda/descida rápida, mas de maneira alguma é um nó planejado para segurar a corda se essa passar pelo sistema de frenagem.
O nó nas pontas da corda, unidas ou não, continua sendo o procedimento padrão e imprescindível para o rapel.
Recomendações (CBME):
- SEMPRE prestar atenção à montagem do rapel;
- SEMPRE conferir seus procedimentos;
- SEMPRE conferir os procedimentos e montagem do parceiro, não importa o nível ou a experiência que ele tenha;
- SEMPRE fazer o nó nas pontas da corda quando for rapelar.

*** Este relato foi fornecido de forma espontânea por um membro da comunidade de montanhistas e reflete sua visão do acidente e sua opinião pessoal. Apesar de fazer máximo esforço para confirmar a veracidade e exatidão dos relatos, a CBME ou seus membros não se responsabilizam por eventuais discrepâncias ou inconsistências encontradas nos relatos, ou ainda se indivíduos ou empresas se sentirem de alguma forma ofendidos ou injustiçados pelo conteúdo do relato, apesar da forma anônima de apresentação dos dados. ***