Queimaduras

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Queimaduras

matéria copiada do Manual Merck : http://www.msd-brazil.com/msd43/m_manual/mm_sec24_277.htm

Uma queimadura é uma lesão de um tecido produzida pelo efeito do calor, de substâncias químicas ou da eletricidade.

A maioria das pessoas crê que o calor é a única causa de queimaduras, mas algumas substâncias químicas e a corrente elétrica também podem produzi- las. Embora a pele normalmente seja a parte do corpo que é queimada, os tecidos subcutâneos (localizados sob a pele) também podem ser queimados e os órgãos internos podem ser queimados mesmo quando a pele não é afetada. Por exemplo, quando uma pessoa ingere um líquido muito quente ou uma substância cáustica (p.ex., um ácido forte), podem ocorrer queimaduras no esôfago e no estômago. A inalação de fumaça e de ar quente provenientes do fogo de um edifício em chamas pode produzir queimaduras nos pulmões.

Os tecidos queimados podem morrer. Quando os tecidos são lesados por uma queimadura, ocorre o extravasamento de líquido do interior dos vasos sangüíneos, o que leva à produção de um edema. Em uma queimadura muito extensa, a perda de grande volume de líquido dos vasos sangüíneos que permitem um extravasamento anormal pode levar ao choque. Nesse, a pressão arterial cai tanto que uma quantidade muito pequena de sangue flui para o cérebro e para outros órgãos vitais.

As queimaduras elétricas podem ser causadas por temperaturas superiores a 5.000°C, geradas pela passagem de uma corrente elétrica da fonte de energia para o corpo. Este tipo de queimadura, algumas vezes denominada queimadura de arco elétrico, geralmente destrói e carboniza totalmente a pele no ponto de entrada da corrente no corpo. Como a resistência (a capacidade do corpo de interromper ou tornar mais lento o fluxo da corrente) é alta no ponto onde a pele entra em contato com a fonte de eletricidade, grande parte da energia elétrica é convertida em calor nesse local, queimando a superfície. A maioria das queimaduras elétricas também lesa gravemente os tecidos subcutâneos. Essas queimaduras variam de tamanho e de profundidade, podendo afetar uma área muito maior que a indicada pela área de pele lesada. Os grandes choques elétricos podem paralisar a respiração e alterar o ritmo cardíaco, causando arritmias cardíacas (batimentos cardíacos irregulares) perigosas.

As queimaduras químicas podem ser causadas por vários irritantes e venenos, inclusive ácidos e álcalis fortes, fenóis e cresóis (solventes orgânicos), gás mostarda e fósforo. Algumas vezes, as queimaduras químicas causam a morte tissular (de tecidos) que pode avançar lentamente durante horas depois da queimadura.


Sintomas

A gravidade de uma queimadura depende da quantidade de tecido afetado e da profundidade da lesão, que é descrita como sendo de primeiro, de segundo ou de terceiro grau.

As queimaduras de primeiro grau são as menos graves. A pele queimada fica hiperemiada (vermelha), dolorosa, muito sensível ao tato e úmida ou edemaciada (inchada). A área queimada torna-se branca ao ser levemente tocada, mas não ocorre a formação de bolhas.

As queimaduras de segundo grau causam uma lesão mais profunda. Formam-se bolhas na pele. As bolhas apresentam uma base vermelha ou branca e contêm um líquido claro e espesso. A queimadura, dolorosa ao tato, pode ficar branca quando tocada.

As queimaduras de terceiro grau produzem uma lesão ainda mais profunda. A superfície da queimadura queimadura pode ser branca e macia ou negra, calcinada e coriácea. Como a pele queimada pode estar pálida, ela pode ser confundida com a pele normal em pessoas de pele clara, mas ela não fica branca ao ser tocada. Os eritrócitos (hemácias, glóbulos vermelhos) danificados da área lesada podem fazer que a mesma apresente uma cor vermelho intenso. Ocasionalmente, formam-se bolhas na área queimada e os pêlos da área podem ser facilmente arrancados das raízes. A área queimada perde a sensibilidade ao tato. Geralmente, as queimaduras de terceiro grau são indolores porque as terminações nervosas da pele são destruídas.

É difícil diferenciar uma queimadura de segundo grau profunda de uma de terceiro grau antes que sejam transcorridos alguns dias após a lesão.

Prognóstico

A cura depende da profundidade e da localização da queimadura. Nas queimaduras superficiais (queimaduras de primeiro grau e queimaduras de segundo grau superficiais), as camadas mortas de pele despregam e a epiderme (camada superior da pele) volta a crescer para cobrir as camadas inferiores. Uma nova camada de epiderme pode crescer rapidamente a partir da base de uma queimadura superficial sem deixar cicatriz ou, quando muito, uma pequena cicatriz. Essas queimaduras não destroem a derme (camada mais profunda da pele), que não se regenera.

As queimaduras profundas lesam a derme. Uma nova camada de epiderme cresce lentamente a partir das bordas da área queimada e de qualquer remanescente da epiderme na área queimada. Conseqüentemente, a cura é muito lenta e a cicatriz é considerável. A área queimada também tende a contrair, deformando a pele e comprometendo o seu funcionamento.

Queimaduras leves do esôfago, do estômago e dos pulmões geralmente curam sem maiores problemas. No entanto, as queimaduras mais graves podem produzir cicatrizes e estreitamentos, denominados estenoses. A cicatrização pode obstruir a passagem de alimentos através do esôfago e pode impedir a transferência normal de oxigênio do ar para o sangue nos pulmões.

Tratamento

Aproximadamente 85% das queimaduras são pouco importantes e podem ser tratadas em casa, em um consultório ou em um serviço de emergência hospitalar. A remoção de toda roupa, sobretudo quando o indivíduo veste roupas que queimam rapidamente (p.ex., camisas de fibra sintética que derretem) ou que estejam cobertas de alcatrão quente ou embebidas com substâncias químicas, ajuda a interromper a progressão da queimadura e evita a ocorrência de novas lesões. Assim que possível, as substâncias químicas (p.ex., ácidos, álcalis e compostos orgânicos) são eliminadas da pele por meio de lavagem com uma grande quantidade de água. A hospitalização do queimado é mais provável nas seguintes situações:
• Queimaduras da face, das mãos, dos órgãos genitais ou dos pés
• Dificuldade de tratar a queimadura em casa
• O queimado tem menos de 2 anos ou mais de 70 anos de idade
• Queimadura de órgãos internos

Queimaduras Leves

Quando possível, as queimaduras leves devem ser imersas imediatamente em água fria. As queimaduras químicas devem ser lavadas prolongadamente com uma grande quantidade de água. No consultório médico ou no serviço de emergência hospitalar, a queimadura é lavada cuidadosamente com água e sabão, para que todos os resíduos sejam removidos. Quando existe sujeira aderida à superfície cutânea, o médico pode anestesiar a área e esfregá-la com uma escova. Geralmente, toda bolha rota ou que pode romper facilmente é removida. Após a limpeza da área, um creme com um antibiótico (p.ex., sulfadiazina de prata) pode ser aplicado sobre a superfície afetada.

A seguir, é feito um curativo, geralmente com gaze, para proteger a área queimada da sujeira e de outras possíveis lesões. É extremamente importante que a área queimada seja mantida limpa, pois, como a epiderme (camada superior da pele) está lesada, podem ocorrer infecções e disseminação das mesmas. Os antibióticos podem ajudar a prevenir a infecção, mas eles nem sempre são necessários. Uma dose de vacina antitetânica é administrada quando a vacinação não estiver atualizada.

Um membro inferior ou superior queimado geralmente é mantido em uma posição acima do nível do coração para reduzir o edema. A manutenção desta posição pode ser possível apenas no hospital, onde parte da cama pode ser elevada ou uma tração pode ser utilizada. Quando a queimadura afeta uma articulação, sendo de segundo ou de terceiro grau, pode ser necessário imobilizar a articulação com um imobilizador porque os movimentos podem piorar a lesão. Muitas pessoas vítimas de queimaduras necessitam de um analgésico, freqüentemente um narcótico, durante pelo menos alguns dias.

Queimaduras Graves

As queimaduras mais graves potencialmente letais exigem um tratamento imediato, de preferência em um hospital equipado para tratar queimaduras. Geralmente, a equipe de resgate ou da ambulância administra oxigênio às vítimas de incêndios por uma máscara facial para ajudar a superar os efeitos do monóxido de carbono, um gás tóxico que é freqüentemente produzido nos incêndios. No serviço de emergência, os médicos e os enfermeiros certificam-se de que a pessoa consiga respirar satisfatoriamente, realizam um exame em busca de outras lesões potencialmente letais e iniciam o tratamento de reposição da perda líquida e de prevenção de infecções. A oxigenioterapia hiperbárica, em que o paciente é colocado em uma câmara especial com oxigênio sob alta pressão, é algumas vezes utilizada para tratar queimaduras graves. No entanto, ela deve ser iniciadas nas primeiras 24 horas após a ocorrência da queimadura e nem todos os serviços possuem uma câmara hiperbárica.

Quando as vias aéreas e os pulmões são lesados em um incêndio, o médico pode colocar um tubo na garganta do indivíduo para auxiliar a respiração. A decisão de intubar o paciente depende de fatores como a freqüência respiratória. A respiração muito rápida ou muito lenta impedem o enchimento dos pulmões com uma quantidade suficiente de ar e a transferência de oxigênio suficiente para o sangue. A intubação pode ser necessária quando a face é lesada ou quando o edema da garganta ameaça a respiração. Algumas vezes, a intubação é realizada quando o médico suspeita de lesão das vias aéreas antes dela ser perceptível (p.ex., quando uma pessoa é exposta a um tipo de incêndio que pode lesar as vias aéras, sobretudo um incêndio em um espaço fechado ou uma explosão), quando é observada a presença de fuligem nas narinas ou na boca ou quando os pêlos do nariz estão queimados. Quando a respiração é normal, basta a administração de oxigênio por uma máscara facial.

Após a limpeza da área, é realizada a aplicação de um creme ou de uma pomada com antibiótico e, em seguida, a área é coberta com ataduras estéreis. As ataduras geralmente são trocadas duas ou três vezes por dia. Como as queimaduras extensas são extremamente suscetíveis a infecções graves, antibióticos podem ser administrados pela via intravenosa. Uma dose de vacina antitetânica também pode ser administrada, dependendo das imunizações anteriores da pessoa.

As queimaduras extensas podem acarretar uma perda de líquidos corpóreos potencialmente letal. Por essa razão, é realizada a administração intravenosa de líquidos para repor a perda. As queimaduras profundas podem causar mioglobulinúria, uma condição em que os músculos lesados liberam a proteína mioglobina, que lesa os rins. A não ser que seja reposto um volume suficiente de líquido, a insuficiência renal pode ocorrer.

A pele queimada converte-se em uma superfície espessa e crostosa denominada escara, que pode retrair, endurecer e impedir que o sangue chegue normalmente na área. A diminuição do suprimento sangüíneo pode ser perigosa quando a queimadura envolve totalmente um membro superior ou inferior. Pode ser necessária a realização de uma escarotomia (incisão da escara) para reduzir a tensão sobre o tecido que se encontra abaixo.

Mesmo uma queimadura profunda pode sarar espontaneamente quando a área atingida é pequena (menor que uma moeda) e é mantida meticulosamente limpa. Contudo, quando a derme subjacente é muito lesada, geralmente é necessária a realização de um enxerto de pele para cobrir a área queimada. Um enxerto de pele é um pedaço de pele saudável retirada de áreas não queimadas do corpo da vítima (autoenxerto), de uma outra pessoa viva ou morta (aloenxerto) ou de outras espécies (xenoenxerto), geralmente de porco, pois a sua pele é muito semelhante à pele humana. Os autoenxertos são permanentes, mas os enxertos de pele de outras pessoas ou de animais são temporários, tendo a função de proteger a área lesada enquanto o organismo se recupera, sendo rejeitado pelo organismo aproximadamente 10 a 14 dias mais tarde.

Geralmente, a fisioterapia e a terapia ocupacional são necessárias para minimizar a quantidade de cicatrizes e para que seja mantido o máximo possível da função da área queimada. Assim que possível, são colocados imobilizadores para manter as articulações estendidas, de modo que os músculos e a pele não se tornem tensos e contraídos. Os imobilizadores são mantidos até a área estar completamente curada.

Antes da realização de um enxerto de pele, as articulações afetadas são mobilizadas para que seja aumentada a sua capacidade de movimento dentro de uma amplitude normal. Após a realização do enxerto, o médico geralmente imobiliza a área durante um período de 5 a 10 dias para garantir que o enxerto permaneça bem fixado antes dos exercícios serem reiniciados.

As vítimas de queimaduras devem consumir uma quantidade adequada de calorias e nutrientes para que as lesões curem. Os pacientes que não conseguem comer o suficiente podem ingerir suplementos nutritivos ou recebê-los através de uma sonda nasogástrica (um tubo que é passado através do nariz até o estômago). Quando os intestinos não funcionam devido a uma lesão ou a cirurgias sucessivas, pode ser realizada a administração de nutrientes pela via intravenosa.

Uma pessoa que sofre queimaduras pode apresentar uma depressão profunda, pois as queimaduras graves demoram muito para curar, às vezes anos. A maioria dos centros de queimados oferece suporte psicológico para seus pacientes através de assistentes sociais, psiquiatras e outros profissionais.

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